O Feminino e o retorno da Deusa


O Feminino e o retorno da Deusa

Maio mês das Mães, do feminino sagrado, mês de Maya, que unida à Zeus é mãe de Hermes, o Psicopompo que tem trânsito livre desde os céus até o submundo, aquele que é mensageiro do Olimpo.

Maya é a ilusão da matéria, a Matrix mental, os encantos da Sacerdotisa.

Fértil, abundante, generosa, próspera, guardiã da morte e da vida que ressurge na natureza. As raízes são sua expressão material, o cordão umbilical que liga o ser ao seu gerador.

Hera, claro, não gostou de mais esta escapada do marido mas, curiosamente, dentre todos os seus enteados, Hermes é o único que não sofre perseguição da deusa, muito afeita aos seus dons de correspondência e também à beleza e sagacidade de Maya que soube elogiá-la como nenhuma outra deusa, reconhecendo sua inteligência e perspicácia.

Hermes, Mercúrio, o Trimegisto três vezes grande! Protetor das comunicações, do comércio e da medicina, portador do caduceu de ouro e do elmo e sandálias aladas. Usamos o mercúrio para medir temperaturas e cicatrizar feridas expostas, todos aspectos da ilusão da matéria. Regente de Gêmeos e Virgem, casas 3 e 6, a trindade e a semente, o ar e a terra mutável, o duplo hermafrodita, junção dos potenciais de Marte e Vênus. Sua oitava maior é o próprio Urano, o próprio céu primordial!

Plutão anda “casado” com o Nodo Sul, nossa “bolsinha da Hermione”, o reduto do Karma e do Dharma, da ancestralidade com nossos potenciais e herança a ser utilizada e resolvida nesta vida ou em muitas. Lá estão eles em Capricórnio, a casa 10 de Saturno, o Meio do Céu que é o topo da nossa Roda do Destino que esperamos que seja da Fortuna! Mas Plutão é aquele que nos tira o chão, que vai sem pena, é o senhor da morte e da transmutação, àquele que não é enganado pelo véu de Maya e que sabe que não há esta historinha de início e fim. Ele vai lá nas nossas pequenezas humanas e faz de tudo pó. Renasce quem tiver coragem e ação! Então, o cara ta lá fazendo o trabalho dele e a gente tá de cabelinho (que é no nosso corpo a materialização da memória) em pé!

Esta casa Capricorniana e tudo que está acontecendo agora e só vai se intensificar em 2020 tá fazendo uma anamnese na nossa vida, é recordação atrás de recordação até achar (e curar com Kíron em Áries!) a raiz do mal, a causa pura e simples, a fonte de todo e qualquer problema que nos tira a paz de espírito. No momento Vênus e Mercúrio estão em Áries amplificando esta força de cura, é o fogo da Fênix!

Mas falando em pó, raiz e fogo, lembro do mapa do ano novo astrológico e aquela força feminina de bracinho dado, Lillith e Vênus arejadinhas das idéias em Aquário que estava na casa 5 do amor-próprio, da alegria e dos filhos. Indicava a nova Era cheia de intempestivas e abruptas mudanças do status quo e tudo que for pra ser revisto e ampliado no que diz respeito à luz e a sombra do aspecto feminino! Mas Aquário é o AR Fixo, idéias que não mudam, a essência... e o que é que não muda quando pensamos no feminino? O Arquétipo da Deusa, a alegria da leoa, o Feminino Ancestral!

E já que tocamos no assunto, eis que Nossa Dama, a Notre Dame queima!

O Feminino erigiu sua pira no Templo Sagrado! Queimou a torre e o emaderamento, e a resistência mostrou-se nas pedras e em seus vitrais alquímicos. A Entrada de Notre Dame tem em seu pórtico a forma feminina ogival, entramos e voltamos ao útero da mãe e sentimos seu aconchego repleto de penumbra. Mas este salão quaternário suportava o peso de uma torre, erigida da madeira de uma floresta de carvalhos sagrados para os celtas, povo que honrava a deusa à beira do rio onde hoje se assenta a catedral. O local que era pra ser de religare obedeceu aos interesses vigentes e seus confrontos, derrubando a oportunidade do encontro e transformando o culto à Deusa em prática pagã.


Simbolicamente esta catedral é para o ocidente “a casa do Corcunda”. Ela recebe os excluídos, abortados em vida, os deficientes e deformados. Mas ele só obteve compreensão de uma cigana, outro tipo de excluído, grupo étnico visto de forma deformada pela sociedade da época. É uma representante da sabedoria do feminino que tem olhos de ver além da matéria. É o Éthos em ação, a parte superior em nós que vai além das prisões morfo e epigenéticas.

Quando utilizamos nossa capacidade mutável, Hermes expande seu reino de sabedoria. E assim feminino e masculino integram-se em uma síntese que melhora tudo em nós e ao nosso redor. A dualidade é integrada pela ação do Éthos que tem o poder de transformar todo o Pathós e cura as doenças dos sistemas ancestrais e sociais. E é isto que Plutão vem provocando agora, sem pena e a qualquer custo.

Notre Dame se reinventou e permanecerá viva na energia do feminino, que acolhe, nutre com a energia de seu seio e do seu ser. Ao ver o resultado do incêndio, lembrei de Joana D’arc como referencial de um feminino que se reinventou quando foi preciso, e ainda assim foi excluída e estigmatizada pela sociedade, foi para a pira acusada de ser bruxa. 

Logo ela que como símbolo flor salvou a França... até hoje no dia 1º de Maio os franceses se presenteiam com lírios do vale. A Deusa permaneceu viva nas delicadezas.

Mas lembrei também da Titanomaquia (que será tema para outra análise) que acontece agora mesmo sobre nossas cabecinhas de alfinete comparadas ao infinito cósmico; lembrei que esta conjunção se dá a cada 800 anos e que o resultado desta Guerra de Titãs seria bem diferente se não fosse por Métis, deusa da Sabedoria e Prudência. Suas idéias é que tornaram possível a Zeus derrotar Saturno e seus aliados. Mas ele não queria que acontecesse à ele o que acabara de fazer com seu pai, que fez, a seu tempo, o mesmo com seu avô; não queria que a profecia se cumprisse ao ser destronado por um de seus filhos; e ao saber que Métis carregava um filho seu no ventre, decidiu engolir a deusa.

Das imagens de foto e vídeo do que restou da catedral, vejo do alto o salão quaternário, vejo a cabeça de Zeus!

Depois de engolir Métis ela lhe provocou uma monumental dor de cabeça, a ponto do deus Olímpico pedir que buscassem Hefesto no Vulcão Etna com seu machado duplo (símbolo da deusa pagã).  Hefesto, o deus da forja, deformado e excluído do Olimpo, logo à ele foi pedido por Zeus que lhe abrisse o crânio com um golpe. E de lá surgiu sua filha, Athena, já adulta e armada, símbolo do arquétipo feminino que surge a partir da mente do masculino e corresponde às suas aspirações patriarcais.

É deste pátio quaternário que surgia a torre. Da cabeça de Zeus que surgia Athena. Um símbolo fálico no centro do quaternário como forma que ”cabia” à deusa. Ela é filha de Métis, mas não é a própria. Sua ancestralidade é mais sábia e prudente e também não está conformada pela mente masculina. Athena ficou sua existência à sombra do pai, não casou nem teve filhos, não amou. É a mente sábia mas fria; não é o feminino feito de terra que faz brotar a semente, feito de sangue da regra e do parto, feita de leite que nutre. Athena é o feminino masculinizado pela idéia paterna.

E agora a torre queimou e caiu! O Arcano a Torre, A Ira Divina, fez da idéia o pó, e de lá surgirá a Fênix, do pátio de Notre Dame, do útero da Deusa que agora está plenamente iluminado pelo Sol e pela luz cósmica será fecundado.

Das cinzas de todos os carvalhos sagrados que foram usurpados da Mãe Terra surgirá a Sabedoria e a Prudência de Métis liberta em cada mulher e em cada homem que redescobrirem em si a força do feminino e se permitirem fecundar pela luz cósmica. Não há mais espaço na Era de Aquário para mirar-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas que vivem pros seu maridos; aquelas que se fustigadas não choramse ajoelham, pedem, imploram mais duras penas... obscena é que esta idéia permaneça hoje, da mulher que sai do jugo do pai para o do marido ou do patrão, que se tolhe no direito de ter filhos ou que é deixada à sorte com eles, já que a música é de 1976. 

Salve Chico! Em 1977 Kíron foi descoberto. Agora ele está em Áries com Vênus e Mercúrio, queima este karma feminino à moda alquímica!

O pátio agora é o útero ctônico da Matríztica, Astarte Venusiana, respira Arte e Ar mutabilizando os dogmas através da mente ateniense conquistada, olhando pro Nodo Norte em Câncer nos lembrando de cada antepassado, cada pedra que construiu nosso castelo ancestral, o chão sagrado e livre onde pisamos em tempos imemoriais. Hora da Anamnese, de recuperar esta memória imemorial, que habita o campo fértil de onde surgem os Arquétipos, feminino e masculino, fortalecendo o herói que há em nós e que permanece sendo pinçado no calcanhar pelo caranguejo do mangue, das águas paradas e lodosas.

Que Netuno que hora reina em casa nos lembre deste oceano de amor incondicional da casa 12, que estava na casa 6 virginiana no mapa do ano novo astrológico, casa de Hermes; que sejamos 3 x grandes e integrados nas energias femininas e masculinas para, finalmente, exercer o Amor humano da forma mais profunda e completa possível.

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